A grande decisão deste domingo entre o herói local Jannik Sinner e o norueguês Casper Ruud deveria ser apenas uma celebração do esporte. No entanto, o torneio de Roma entrou na mira do público e da imprensa devido aos valores astronômicos dos bilhetes e às condições precárias de trabalho de centenas de jovens que fazem o evento acontecer.
Para assistir à final no Campo Centrale, os torcedores tiveram que desembolsar uma pequena fortuna. Os bilhetes mais baratos para este domingo não saíram por menos de 600 euros (cerca de R$ 3.500), enquanto os ingressos para camarotes atingiram a marca de 2.700 euros (cerca de R$ 16 mil).
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Classificados como “indecentes” por parte da mídia local, os preços foram defendidos de forma controversa pelo presidente da Federação Italiana de Tênis e Padel (FITP), Angelo Binaghi. Segundo o dirigente, o encarecimento das entradas tinha um propósito pedagógico: gerar um público “mais educado e menos barulhento” nas arquibancadas.
A estratégia financeira, elitista ou não, funcionou para os cofres da organização. O Masters de Roma celebra um recorde histórico com mais de 400 mil ingressos vendidos e um retorno econômico estimado em R$ 5,8 bilhões (cerca de 1 bilhão de euros).
Trabalho por 6 euros a hora e sem almoço
Por trás da opulência e dos brindes com champanhe, a realidade dos operários do torneio é alarmante. Uma reportagem do jornal italiano Il Manifesto revelou os relatos de estudantes universitários submetidos a condições de trabalho abusivas no complexo.
“Eu trabalhava em turnos de oito horas e ganhava cerca de 6 euros por hora (R$ 35)“, revelou Francesca, que atuou no controle de acesso do público na recém-renomeada BNP Paribas Arena.
Outros relatos apontam problemas ainda mais graves, como a falta de transparência contratual e a ausência de auxílio-alimentação básico:
- Sem cópia de contrato: “Lemos rapidamente e assinamos após um curso de formação gratuito. Nunca nos enviaram a nossa cópia“, explicou Margherita, estudante de odontologia.
- Trabalho não pago: os jovens são obrigados a chegar com 30 minutos de antecedência aos postos, período que não é contabilizado no salário.
- Fome nos bastidores: a organização não fornece refeições. “Não nos dão nem mesmo um sanduíche. Se quisermos comer nos restaurantes do complexo, uma refeição equivale a quatro horas de trabalho. Melhor esperar para comer em casa”*, desabafou outra estudante da Universidade IULM.
O contraste é indigesto. Enquanto o “Efeito Sinner” arrasta multidões e injeta bilhões na economia do tênis italiano, a base que sustenta o espetáculo lida com a desvalorização. O Foro Itálico encerra sua edição de 2026 com recordes nas quadras, mas com uma séria mancha social fora delas.


