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Fora do top 100: o que a queda de Bia Haddad nos ensina sobre a crueldade do tênis

Das semifinais de Roland Garros às quadras secundárias em Portugal: uma reflexão profunda sobre as sete derrotas seguidas da número 1 do Brasil e a solidão do declínio no circuito.

​O tênis é um esporte de uma crueldade silenciosa. Não há companheiro para dividir a culpa de um slice que morre na rede, não há substituição tática quando as pernas pesam e, acima de tudo, não há passado que garanta o presente. Hoje, olhar para o ranking e ver Beatriz Haddad Maia fora do top 100 — lutando em quadras secundárias de torneios menores em Portugal para reencontrar o ritmo — provoca um nó na garganta de quem se acostumou a ver a brasileira empilhar resultados positivos.

​A memória recente é um farol que, às vezes, ofusca. Não faz tanto tempo assim. Em 2023, o saibro de Paris parecia reverenciar a canhota de São Paulo. Aquela semifinal épica em Roland Garros, disputada ponto a ponto, game a game, diante da número 1 do mundo à época, Iga Swiatek, fincou a bandeira brasileira de volta ao topo do mundo. Bia chegou ao top 10. Carregava nos ombros a herança de Maria Esther Bueno e a catarse que o país não sentia desde Gustavo Kuerten. Ela era a personificação da resiliência: uma jogadora que superou cirurgias nas costas, fraturas e suspensões para provar que o topo era o seu lugar.

​Mas o tênis é cíclico, e a grama ou o cimento não têm memória. A turnê atual de Bia Haddad é o retrato falado de uma crise de confiança. Sete derrotas consecutivas. Bolas que antes limpavam a linha agora saem por centímetros; vantagens de 4 a 1 que evaporam sob o calor da pressão psicológica. A raquete parece pesar uma tonelada quando o braço encolhe no momento de fechar o set. É uma turbulência dolorosa, mas que — se serve de consolo — está longe de ser uma exclusividade dela.

​A solitude do declínio temporário é o fantasma que assombra as maiores campeãs da nossa era. Veja Caroline Garcia, que já flertou com o topo do mundo e hoje joga contra as próprias inconsistências. Ou Emma Raducanu e Bianca Andreescu, que tocaram o céu ao vencer o US Open e viraram reféns de seus próprios corpos e das expectativas esmagadoras que vieram com o troféu. Até mesmo Naomi Osaka e Victoria Azarenka, lendas que já souberam o que é olhar o circuito de cima, enfrentam tempestades para se manterem competitivas na elite atual. O topo do tênis feminino não é um trono de pedra; é uma esteira rolante em velocidade máxima.

​A má fase de Bia não apaga a sua história. O tênis nos ensina que a distância entre o top 10 e o top 100 é brutal no ranking, mas sutil na mente. Uma vitória feia, um ponto que resvalou na rede, um insight psicológico — muitas vezes é só disso que uma grande campeã precisa para que a engrenagem volte a girar.

​Bia Haddad Maia já provou que sabe o caminho de volta do abismo. No esporte das linhas milimétricas, a crise atual é apenas o set mais longo de sua carreira. E se há algo que o torcedor brasileiro aprendeu sobre a Bia, é que ela nunca entrega os pontos antes do “game, set and match”.

Gabriel Lima
Gabriel Lima
Gabriel Lima é jornalista formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e soma 15 anos de experiência na crônica esportiva. Com um currículo que inclui coberturas internacionais de peso, como o Pan de Santiago 2023 e as Olimpíadas da Juventude de 2018, Gabriel alia o rigor da apuração acadêmica à agilidade exigida pelo jornalismo de campo. Apaixonado por histórias de superação e bastidores do esporte.

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