HomeSmash & CrônicaO renascimento adiado de Barbora Krejcikova na Holanda

O renascimento adiado de Barbora Krejcikova na Holanda

Em uma modalidade de crueza sem tamanho, a tcheca Barbora Krejcikova vê uma doença repentina adiar o fim de um jejum de dois anos no último degrau de sua ressurreição

O tênis, em sua essência mais cruel e poética, não é apenas sobre as bolas que quicam dentro ou fora das linhas. É sobre o tempo. E, mais do que tudo, sobre o corpo que tenta resistir a ele.

​No saibro sagrado de Roland Garros ou na grama mística de Wimbledon, a tcheca Barbora Krejcikova já conheceu o topo do mundo. Mas o topo é um lugar ventoso e instável. Nos últimos dois anos, o que se viu não foi a celebração de seus golpes cirúrgicos, mas uma batalha silenciosa e dolorosa contra o próprio corpo. Lesões, longos períodos de afastamento e o fantasma da dúvida que assombra qualquer campeã que se vê longe das decisões. Dois anos inteiros sem sentir o frio na barriga de pisar em uma quadra para disputar um título de simples do circuito WTA.

​Até que veio a grama de ‘s-Hertogenbosch.

​Na Holanda, durante o WTA de Libéma, Barbora parecia ter feito as pazes com o destino. Caminhou pelo torneio com a autoridade de quem redescobriu o caminho de casa. Set por set, vitória por vitória, ela limpou a chave. Quando superou a polonesa Magda Linette na semifinal, o tênis respirou aliviado: a campeã estava de volta. A final de domingo não era apenas um jogo contra a jovem americana Robin Montgomery; era a coroação de uma travessia no deserto. Dois anos de jejum estavam prestes a terminar.

​Mas o tênis, repito, é uma modalidade de uma crueza sem tamanho.

​O domingo amanheceu, o público lotou as arquibancadas, a rede estava esticada e o troféu brilhava sob o céu holandês. Montgomery entrou em quadra. O relógio corria. E Barbora não vinha. O anúncio, quando veio, caiu como um balde de água fria na torcida e como um punhal no coração de quem torce pela superação no esporte: uma doença repentina, um mal-estar físico intransponível nas últimas horas antes da partida. Desistência. Walkover.

​Não houve o som da raquete encontrando a bola. Não houve o ponto do campeonato, as lágrimas de vitória ou o desabafo olhando para o camarote. Robin Montgomery ergueu a taça mais inesperada de sua vida, e Krejcikova foi forçada a aceitar o papel mais amargo que o esporte reserva a um atleta: o de assistir ao próprio renascimento ser adiado por forças que fogem ao controle das mãos que empunham a raquete.

​Escrever sobre esporte costuma ser sobre contar vitórias e derrotas. Mas a crônica de ‘s-Hertogenbosch é sobre o quase. É sobre a ironia de passar dois anos escalando a montanha para, ao chegar no último degrau, ser impedida de olhar a vista.

​Barbora Krejcikova não jogou a final, mas a sua semana na Holanda deixa um recado silencioso. O corpo pode ter falhado no último minuto, mas o tênis que a trouxe até ali provou que a mente e o talento continuam intactos.

A grama secará, o circuito se moverá para Londres, e a tcheca sabe que, embora o destino tenha lhe roubado o domingo, ele lhe devolveu a certeza de que ela ainda pertence aos grandes palcos. O esporte dá, o esporte tira. Mas a busca continua.

Gabriel Lima
Gabriel Lima
Gabriel Lima é jornalista formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e soma 15 anos de experiência na crônica esportiva. Com um currículo que inclui coberturas internacionais de peso, como o Pan de Santiago 2023 e as Olimpíadas da Juventude de 2018, Gabriel alia o rigor da apuração acadêmica à agilidade exigida pelo jornalismo de campo. Apaixonado por histórias de superação e bastidores do esporte.

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